Escrita como autoconhecimento.

Os diários

Acho que meu primeiro diário eu ganhei aos 9 anos, era rosa, com desenhos de bailarinas, tinha um cadeado com uma chavinha e acompanhava uma cartela de adesivos de sapatilhas e laços.
Eu escrevia todos os dias nele, e todo dia era o mesmo: “Hoje fui pra escola, a tarde fiz lição, vi TV e brinquei com meus irmãos.”, mas sempre complementado com desenhos e adesivos, o que tornava cada dia único e especial. Durante a adolescência, por alguns anos escrevi em diários, outros anos não. Abandonei este hábito na faculdade, infelizmente, pois até hoje tardo a lembrar o nome de um paquera ou outro que tive.
Com diários comecei minha relação com a escrita, eles eternizam momentos, registrando fatos que passamos e nossos sentimentos naquele instante, dão magia às histórias que serão lidas anos ou até décadas depois, talvez até por nossos filhos ou netos, se autorizado. Será que gostaríamos que nossos diários, tão íntimos, fossem lidos por outras pessoas, mesmo depois de nossa morte?
Lembro que em meus diários de infância eu escrevia na contra capa em letras garrafais: “NÃO LEIA! DIÁRIO PRIVADO” evitando uma mãe ou irmãos curiosos, mas eles seguem em uma caixa de recordações e até hoje não sei se um dia autorizarei alguém a lê-los.
Até que com 30 anos comecei a fazer terapia.

O caderno da terapia

O caderno da terapia não era um diário, não era escrito fielmente todos os dias, mas recebia relatos de sonhos ao acordar, desabafos de acessos de raiva e tristeza durante a semana,  aprendizados ao fim de cada dia difícil e questionamentos para observação pós sessões. Ele se tornou meu maior aliado a todos os meus devaneios e diferentes estados de espírito, minha melhor ferramenta de autoconhecimento. Eu precisava escrever para entender tudo aquilo que rondava meus pensamentos, eu sentia necessidade de ler, de forma ordenada, as ideias e reflexões que se atravessavam em meu interior. Escrevendo, organizamos nossas confusões mentais, medos, conflitos existenciais.

Como diz Fannery O’Connor “eu escrevo porque eu não sei o que eu estou pensando até eu ler o que eu mesma disse”.

No caderno de terapia eu me permitia ser vulnerável, deixava de lado todas as minhas máscaras, e ai de quem se aproximasse daquele caderno e de toda minha intimidade! Aquele caderno me acompanhou por 3 anos e foi então que aos 33 parei a terapia, deixei o caderno em uma caixa de recordações no alto de um armário na casa dos meus pais, sem esquecer os aprendizados do processo terapêutico, e tirei um sabático, um período de viagem pelo mundo com um mochilão nas costas

As Cartas

Viajei por 3 anos de forma minimalista, apenas com um mochilão, e as histórias que vivi renderiam bem mais que um diário de bordo, que seria pesado de carregar, então, logo no começo da viagem, tive a ideia de escrever cartas para mim mesma, e enviar para o endereço dos meus pais em São Paulo, cada vez que eu deixava um país.

O hábito de escrever cartas à mão eu desenvolvi na minha infância e adolescência, eu escrevia cartas para minhas melhores amigas e entregava a elas na escola ou no clube. Embora elas não entendessem minha letra, que até hoje segue sendo o mesmo garrancho, mas escrever cartas à mão era algo amoroso e pessoal. E, durante a viagem, segui este ritual de amorosidade ao escrever cartas da Marina do presente para a Marina do futuro. E hoje quem as lê é a Marina do presente olhando para a Marina do passado.

Esta ideia me fez muito bem, primeiro porque sempre que a solidão batia, o medo do incerto ou uma felicidade intensa me assolava, eu traduzia todos aqueles sentimentos em qualquer folha de papel que eu encontrava na frente, que iriam parar em um envelope até o fim do mês para ser despachado e enviado com aquela dose de superação e aprendizado.

Além desta escrita ser minha ferramenta de autoconhecimento durante a viagem, o papel e a caneta eram meus melhores amigos quando eu estava sozinha, eu sentava tranquilamente em um restaurante ou bar e sabia que iria me ocupar com a escrita, que esta seria minha companheira da tarde ou noite, se eu não tivesse feito nenhum amigo no hostel.

As redes sociais

Também durante a viagem comecei a registrar meus relatos e aprendizados em um blog e nas redes sociais, e foi então que fui percebendo a escrita como a ponte com o outro, a identificação no outro.

Percebi que aquele autoconhecimento que eu estava ganhando passando pelas crises e surpresas da viagem, afetavam mais pessoas. Pessoas que também estavam viajando em situações similares ou até mesmo pessoas em suas casas, que viajavam através de meus relatos.

Escrever para mim foi minha terapia, eu escrevia única e exclusivamente para meu desenvolvimento e auto compreensão, no entanto fui percebendo naquelas palavras a relação e o impacto no outro, e quando nos reconhecemos no texto do outro, nos identificamos no outro, e nos conhecemos mais em nós.

Isto nos torna mais humanos.

Escrever é um ato humano.

Sobre a autora:
Marina Storch é solteira, independente, feminista, viajante e apaixonada por mudanças de rota. No momento ela está escritora, professora de yoga e terapeuta holística com técnicas em thetahealing, barras de access e soundhealing. Porém ela também já foi engenheira de produção e executiva de marketing e vendas, tudo isso pode mudar a qualquer momento. Dona de hábitos saudáveis e vida minimalista, Marina está em período sabático há 3 anos, se permitindo viajar, morar em várias cidades e exercer diferentes trabalhos, experimentar. Apaixonada pela vida, seu foco é motivar mulheres a realizarem seus sonhos!
Siga no Instagram: @mudeiarota / Blog pessoal: Mudei a rota

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Sobre Nossos Olhares

Passei a olhar de forma diferente para a vida, para meu semelhante e para o planeta. Voltei de uma jornada pelo mundo ainda mais inspirada a continuar olhando para minha transformação, e a compartilhar essa vontade para o maior número de pessoas possíveis, através de tudo que eu já tinha aprendido na vida, através da minha experiência.

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Juliana Faria - Idealizadora

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